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Yuriko Miyamoto, Uma Escritora Japonesa Agora em Português!

O texto a seguir foi elabora e escrito pelas pessoas que integram o "Núcleo de Tradução Yuriko Miyamoto" do Grupo de Pesquisa Pensamento Japonês. Após breve apresentação da grande escritora Yuriko Miyamoto, é apresentado o livro Mulheres sobre as quais desejo escrever, que conta com uma coletânea de textos da autora até então inéditos em português!


O evento de lançamento do livro ocorrerá em 11/07/2024 às 19h! O evento será online e transmitido pelo Canal do YouTube CEA-UFF.



Não perca essa oportunidade para prestigiar e conhecer mais a fundo os pensamentos e escritos de Yuriko Miyamoto! Ah!, o livro também esta em promoção de pré-lançamento e pode ser adquirido, com envio gratuito, no link abaixo!



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Yuriko Miyamoto (宮本百合子)

Yuriko Miyamoto, pela primeira vez em tradução no Brasil

Núcleo de Tradução Yuriko Miyamoto


Yuriko Miyamoto (1899-1951) foi uma escritora e crítica social ligada às vertentes de literatura feminista e proletária do Japão. Sua vida atravessa os acontecimentos da história mundial e japonesa. Ela é filha de Sei’ichirō Chūjō, um arquiteto formado na Universidade Imperial de Tóquio, e de Yoshie Nishimura, filha de Shigeki Nishimura (1828-1902), um importante pensador do período Meiji. Yuriko mergulhou na leitura de autores japoneses e estrangeiros bem cedo e começou a escrever na adolescência, publicando sua primeira obra, Mazushiki hitobito no mure (Um bando de pessoas pobres) na revista Chūō Kōron (Fórum Central) em 1916. A publicação atraiu a atenção dos leitores e a lançou no mundo literário.


Yuriko deixou a universidade feminina na qual estudava para se dedicar à escrita e, em 1918, acompanhou o pai em uma viagem aos Estados Unidos, onde permaneceu para assistir a aulas como ouvinte na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá, ela conheceu Araki Shigeru (1884-1932), um pesquisador de língua persa antiga com quem se casou em 1919. A mãe de Yuriko adoeceu no final do mesmo ano e o casal retornou ao Japão no ano seguinte.


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Yuriko por volta de 1918

Apesar de Yuriko ter se casado por amor com a pessoa que escolheu sem o envolvimento da família, como seria de praxe na época, o relacionamento não resistiu aos atritos do cotidiano e às diferenças individuais. Em 1924, ela deixou Shigeki e passou a viver com a tradutora e pesquisadora de literatura russa Yoshiko Yuasa (1896-1990), que conheceu por intermédio da escritora Yaeko Nogami (1885-1985). Sua experiência com um casamento infeliz é descrita no romance Nobuko, serializado entre 1924-1926.


Yuriko e Yoshiko foram à União Soviética no final de 1927 e retornaram ao Japão em 1930. Durante esse período, Yuriko estudou a língua, as transformações sociais e políticas que ocorriam no país e, ao retornar ao Japão depois de viajar pela Europa com a família, ela entrou para o Partido Comunista Japonês, então já na ilegalidade, passando a se envolver ativamente no movimento de literatura proletária. Em 1932, ela se casou com o crítico de esquerda Kenji Miyamoto (1908-2007), porém, a vida de casados durou muito pouco tempo devido à perseguição política. Yuriko foi presa pela primeira vez nesse mesmo ano, e Kenji foi para a clandestinidade, no entanto, acabou sendo preso no ano seguinte e só foi libertado ao final da Segunda Guerra Mundial pelo governo de ocupação americano.


Yuriko adotou o sobrenome do marido em 1935 e passou a assinar seus textos com ele em 1937, a pedido de Kenji. Ela foi proibida de escrever, presa e interrogada várias vezes durante esse período, o que chegou a prejudicar sua saúde e quase a levou à morte. Apesar disso, ela continuou com suas atividades literárias e nunca renunciou ao comunismo.


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Com o fim da Segunda Guerra, o Partido Comunista voltou à ativa e Yuriko também se empenhou em sua reconstrução. Ela escreveu os romances Banshū heiya (Planície de Banshū) e Fūchisō (Erva ao vento), publicados em 1947, nos quais Hiroko, a protagonista e seu alter ego, trata das dificuldades do pós-guerra e do reencontro com o marido que havia passado vários anos preso. Seus dois últimos livros, Futatsu no niwa (Dois jardins, 1948) e Dōhyō (Pontos de referência, 1950) retomam a vida de Nobuko, protagonista do romance homônimo escrito nos anos 20. Podemos dizer que esses romances narram muitos episódios da vida da própria autora, desde sua origem burguesa ao desenvolvimento da consciência de classe.


Yuriko também tomou parte em diversas atividades públicas, participando do Fujin Minshu Kurabu (Clube Democrático das mulheres) e do Shin Nihon Bungakukai (Sociedade Literária do Novo Japão). Ela escreveu extensivamente sobre cultura, sociedade e questões de gênero antes de morrer em consequência de uma meningite em 1951.


 

O livro Mulheres sobre as quais desejo escrever: coletânea de textos de Yuriko Miyamoto, publicado recentemente pela Desalinho Publicações, reúne traduções de textos diversos dessa escritora ligada à vertente de literatura proletária do Japão e preocupada em melhorar a condição das mulheres.


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Mulheres sobre as quais desejo escrever - Yuriko Miyamoto

Além das obras de mais fôlego mencionadas acima, Yuriko escreveu centenas de contos, ensaios e críticas literárias e sociais. Contudo, apenas uma pequena fração desse material foi traduzido para outras línguas até o momento. A coletânea Mulheres sobre as quais desejo escrever procura preencher uma lacuna ao trazer uma seleção dessas obras da escritora. Ela é resultado do trabalho de sete alunos e ex-alunos de graduação e pós do programa de Língua, literatura e Cultura Japonesa da Universidade de São Paulo, um dos projetos do Grupo de Pesquisa Pensamento Japonês: Princípios e Desdobramentos (CNPq).


Além da tradução de 27 textos de gêneros e temáticas diversas, o livro conta com prefácio da líder do Grupo de Pesquisa, a professora Neide Hissae Nagae, introdução de Karen Kazue Kawana, posfácio de Bruna Tiemi Ogawa e comentários dos tradutores.


O primeiro conto, “O mistério dos koropokkuru que vêm com o vento”, um dos poucos em que não há uma protagonista do sexo feminino, foi escrito pela autora em 1918 e publicado postumamente. Ele descreve a vida de um homem da etnia ainu que adota um menino. Este deveria herdar suas terras e a cultura de seus ancestrais, porém as coisas não saem exatamente como o homem havia planejado.


“Rio do coração”, “Praia radiante” e “Uma flor” são contos escritos depois da separação de Yuriko do primeiro marido, e antes de sua viagem à União Soviética, nos quais o casamento e as relações entre homens e mulheres são temas predominantes.


“Loja de departamentos Darumaya”, “A família Koiwai”, “Kagamimochi” e “Mamas” são contos de literatura proletária escritos nos anos 30. Eles procuram denunciar a exploração e as injustiças às quais as classes trabalhadoras estavam expostas na sociedade japonesa, bem como a perseguição sofrida pela esquerda nesses anos em que o Japão se tornava cada vez mais nacionalista e repressivo à medida que se encaminhava para a Segunda Guerra Mundial. Temática presente também em “Primavera de 1932”, texto no qual Yuriko descreve a primeira vez em que foi interrogada e presa. Nessa época, ela e a escritora e amiga Ineko Sata (1904-1998) editavam a revista de esquerda Hataraku Fujin (Mulher Trabalhadora).


Em ensaios como “Os novos locais de trabalho e as obrigações das mulheres”, “A susceptibilidade dos costumes”, “Acerca da felicidade”, “As coisas públicas e as coisas privadas” e “Mulheres sobre as quais desejo escrever”, a autora faz análises sobre a época observando o que ocorria na sociedade e trata das mulheres que se inseriam cada vez mais no mercado de trabalho, da inflação e da política do pós-guerra.


“A vida de Florence Nightingale” é uma biografia sobre essa mulher oriunda da aristocracia britânica que, contrariando as expectativas da sociedade, decidiu se tornar enfermeira e entrou para a história, desempenhando um papel importante no tratamento dos soldados feridos durante a Guerra da Crimeia.


O conto “A praça”, de 1940, descreve alguns eventos ocorridos durante a estadia de Yuriko e Yoshiko Yuasa na União Soviética, como a morte do irmão mais novo de Yuriko e a intimidade das duas amigas. Intimidade que também pode ser vislumbrada no conto “Uma flor”.


Esses são alguns dos textos traduzidos na coletânea. Cada um deles é acompanhado do nome de seu tradutor e informa o nome da revista, ou meio de difusão, pois alguns textos foram inicialmente transmitidos pela rádio da NHK, e o ano da primeira publicação.


Além de constituir uma amostra da escrita de Yuriko Miyamoto, inédita em tradução no Brasil, a coletânea reflete um pouco dos assuntos que interessavam à autora em diferentes momentos de sua vida e permite que os leitores vislumbrem os acontecimentos históricos que lhes serviam de pano de fundo.


Referência:

Miyamoto, Yuriko. Mulheres sobre as quais desejo escrever: coletânea de textos de Yuriko Miyamoto. Organização de Bruna Tiemi Ogawa e Karen Kazue Kawana. Traduções de Bruna Tiemi Ogawa, Karen Kazue Kawana, Luciana Miho Kawasaki, Luis Libaneo, Pedro Malta, Takeshi Ishihara e Tauanny Falcão. Rio de Janeiro: Desalinho, 2024.

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